sábado, 26 de novembro de 2011

O que é Espiritismo? - Continuação sobre Filosofia e Espiritismo



O que é o Espíritismo?



Respondida a pergunta sobre Filosofia devemos tratar ligeiramente da natureza do Espiritismo. E nada mais necessário do que isso, porque nada mais desconhecido em nosso mundo do que ele. Fala-se muito em Espiritismo, mas quase nada se sabe a seu respeito. Kardec afirma, na introdução de O Livro dos Espíritos, que a força do Espiritismo não está nos fenómenos, como geralmente se pensa, mas na sua “filosofia”, o que vale dizer na sua mundividência, na sua concepção da realidade. Mas de onde vem essa concepção? Como foi elaborada?
Os adversários do Espiritismo desconhecem tudo a respeito e fazem tremenda confusão. Os próprios espíritas, por sua vez, na sua esmagadora maioria estão na mesma situação. Por que? É fácil explicar. Os adversários partem do preconceito e agem por precipitação. Os espíritas em geral fazem o mesmo: formularam uma ideia pessoal da Doutrina, um estereótipo mental a que se apegaram. A maioria, dos dois lados, se esquece desta coisa importante: o Espiritismo é uma doutrina que existe nos livros e precisa ser estudada. Trata-se, pois, não de fazer sessões, provocar fenómenos, procurar médiuns, mas de debruçar o pensamento sobre si mesmo, examinar a concepção espírita do mundo e reajustar a ela a conduta através da moral espírita.
Assim, temos alguns dados: o Espiritismo é uma doutrina sobre o mundo, dá-nos a sua interpretação e nos mostra como nos devemos conduzir nele. Mas como nasceu essa doutrina, em que cabeça apareceu pela primeira vez? Dizem que foi na de Allan Kardec, mas não é verdade. O próprio Kardec nos diz o contrário. Os dados históricos nos revelam o seguinte: o Espiritismo se formou lentamente através da observação e da pesquisa científica dos fenómenos espíritas, hoje para psicologicamente chamados de fenómenos paranormais. Os estudos científicos começaram seis anos antes de Kardec, nos Estados Unidos, com o famoso caso das irmãs Fox em Hydesville. Quando Kardec iniciou as suas pesquisas na França, em 1845, já havia uma grande bibliografia espírita, com a denominação de neo-espiritualista, nos Estados Unidos e na Europa. Mas foi Kardec quem aprofundou e ordenou essas pesquisas, levando-as às necessárias conseqüências filosóficas, morais e religiosas.
O Livro dos Espíritos nos oferece a súmula do trabalho gigantesco de Kardec. Mas se quisermos conhecer esse trabalho em profundidade temos de ler toda a bibliografia kardeciana: os cinco volumes da codificação doutrinária, os volumes subsidiários e mais os doze volumes da Revista Espírita, que nos oferecem o registro minucioso das pesquisas realizadas na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. E precisamos nos interessar também pelos trabalhos posteriores de Gabriel Delanne, Ernesto Bozzano, Camille Flammarion e Léon Denis (este último o continuador e consolidador do trabalho de Kardec).
Veremos, assim, que Kardec partiu da pesquisa científica, originando-se desta a Ciência Espírita; desenvolveu, a seguir, a interpretação dos resultados da pesquisa, que resultou na Filosofia Espírita; e, finalmente, tirou as conclusões morais da concepção filosófica, que levaram naturalmente à Religião Espírita. É por isso que o Espiritismo se apresenta como doutrina de tríplice aspecto. A Ciência Espírita é o fundamento da Doutrina. Sobre ela se ergue a Filosofia Espírita. E desta resulta naturalmente a Religião Espírita. Muitas pessoas se atrapalham com isso e perguntam: “Como uma doutrina pode ser, ao mesmo tempo, Ciência, Filosofia e Religião?” Mas essa pergunta revela a ignorância do processo gnoseológico. Porque, na verdade, o conhecimento se desenvolveu nessa mesma sequência e em todas as formas actuais de conhecimento repete-se o processo filo genético.
No Espiritismo, porém, esse processo aparece bem preciso, bem marcado por suas fases sucessivas, entrosadas numa sequência lógica. Podem alguns críticos alegar que Kardec não partiu da pesquisa, mas da crença. Alguns chegam a afirmar que foi assim, que ele já acreditava nas comunicações espíritas antes de iniciar o seu trabalho de investigação. Mas essa afirmação é falsa, a suposição é gratuita. Basta uma consulta às anotações íntimas de Obras Póstumas e às biografias do mestre para se ver o contrário. Quando lhe falaram pela primeira vez em mesinhas falantes, Kardec respondeu como o fazem os cépticos de hoje: “Isso é conversa para fazer dormir em pé”. Só deixou essa atitude céptica depois de constatar a realidade dos fenómenos. Então pesquisou, aprofundou a questão e levou-a às últimas conseqüências, como era, aliás, de seu hábito, do seu feitio de investigador. Charles Richet lhe faz justiça (embora discordando dele) em seu Tratado de Metapsíquica.
Encarando a obra de Kardec pelo seu aspecto científico, sem os preconceitos que têm impedido a sua justa avaliação, ela nos parece inatacável. Alega-se que o seu método de pesquisa não era científico, mas foi ele o primeiro a explicar que não se podiam usar na pesquisa psíquica os métodos das ciências físicas. O desenvolvimento da Psicologia provaria mais tarde que Kardec estava com a razão. Hoje, as pesquisas para psicológicas o confirmam. No tocante ao aspecto filosófico, o desenvolvimento actual das investigações mostram a posição acertada do Espiritismo como doutrina assistemática, “livre dos prejuízos de espírito de sistema”, como declara O Livro dos Espíritos, utilizando a conjugação dos métodos indutivo e dedutivo para o esclarecimento da realidade em seu duplo sentido: o objectivo e o subjectivo. A Filosofia Espírita se apresenta como antecipação das conquistas actuais do campo filosófico e abertura de perspectivas para o futuro.

J. Herculano Pires
Introdução à Filosofia Espírita

Filosofia e Espiritismo


I
Filosofia e Espiritismo
É comum ouvir-se de pessoas que não aceitam o Espiritismo a afirmação de que a Filosofia Espírita não existe. Conhecido professor brasileiro de Filosofia chegou a declarar numa entrevista à imprensa brasileira que O Livro dos Espíritos nada tem de filosófico. A mesma coisa acontece com o Marxismo. Papini esforçou-se, em toda a sua vida, para provar que Marx era um economista e, portanto, não devia ser confundido com um filósofo. Como se um economista não pudesse e até mesmo não precisasse de filosofar. Sartre, pelo contrário, considera o Marxismo como a única Filosofia do nosso tempo. As opiniões são contraditórias, mas isso não nos deve impressionar, pois opiniões não passam de palpites, de pontos de vista individuais, sujeitos às idiossincrasias de cada um. E Pitágoras, o criador do termo Filosofia, já afirmava que a Terra é a morada da opinião. Mais tarde, Descartes advertiu que o preconceito e a precipitação, dois vícios comuns da espécie humana, prejudicam o juízo e impedem a descoberta da verdade.
Um filósofo, um professor de filosofia, um pensador honesto e até mesmo uma simples criatura de bom-senso não podem negar a existência da Filosofia Espírita, a menos que não saibam o que essa palavra significa. Muito menos negar a natureza filosófica de O Livro dos Espíritos, que é um verdadeiro tratado de Filosofia. Veja-se, por exemplo, como Yvonne Castellan, que não é espírita, encara esse livro em seu estudo sobre o Espiritismo. Consulte-se o Dicionário Técnico e Científico de Filosofia, de Lalande. E leia-se o admirável ensaio de Gonzales Soriano, desafiadora mente intitulado El Espiritismo es la Filosofia.
São muitas as definições de Filosofia, mas a que subsiste como essencial é ainda a de Pitágoras: “Amor da Sabedoria”. Daí a exactidão daquele axioma: “A Filosofia é o pensamento debruçado sobre si mesmo.” Eis a descrição perfeita de um ato de amor: a mãe se debruça sobre o filho porque o ama e deseja conhecê-lo. A sabedoria é filha do pensamento, que a embala em seus braços, alimentando-a e fazendo-a crescer. Assim, o objecto da Filosofia é ela mesma, não está fora, no exterior, mas dentro dela. Podemos defini-lo como a relação entre o pensamento e a realidade. Essa a razão de Gonzales Soriano afirmar que o Espiritismo é a Filosofia. Razão, aliás, que ele demonstra filosoficamente em seu livro. O Espiritismo é, segundo sua definição, “a síntese essencial dos conhecimentos humanos aplicada à investigação da verdade.” É o pensamento debruçado sobre si mesmo para reajustar-se à realidade.

sábado, 12 de novembro de 2011

Vencerás



Não desanimes.
Persiste mais um tanto.
Não cultive pessimismo.
Esquece as sugestões do medo destrutivo.
Segue adiante, mesmo varando a sombra dos próprios erros.
Avança ainda que seja por entre lágrimas.
Trabalha constantemente.
Edifica sempre.
Não consintas que o gelo do desencanto te entorpeça o coração.
Não te impressione a dificuldade.
Convence-te de que a vitória espiritual é construção para dia-a-dia.
Não desista da paciência.
Não creias em realização sem esforço.
Silêncio para a injúria.
Olvido para o mal.
Perdão às ofensas.
Recorda que os agressores são doentes.
Não permitas que os irmãos desequilibrados te destruam o trabalho ou te apaguem a esperança.
Não menosprezes o dever que a consciência te impõe.
Se te enganaste em algum trecho do caminho, reajusta a própria visão e procura o rumo certo.
Não contes vantagens, nem fracassos.
Estuda buscando aprender.
Não te voltes contra ninguém.
Não dramatize provocações ou problemas.
Conserva o hábito da oração para que se te faça luz na vida íntima.
Resguarda-te em Deus, persevera no trabalho que Deus te confiou.
Ama sempre, fazendo pelos outros o melhor que possas realizar.
Age auxiliando.
Serve sem apego
E assim vencerás.

Emmanuel (médium: Francisco Cândido Xavier).
 


quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O Inferno à luz da Doutrina Espírita



O Inferno à luz da Doutrina Espírita



By: Humberto Ferreira

A ideia mais comum de inferno como um determinado local, no interior da Terra, onde as almas são condenadas a viver, eternamente, em verdadeiro suplício como consequência dos erros cometidos, não é aceita pelo Espiritismo. De acordo com a Doutrina Espírita, o inferno é estado íntimo de espírito, ainda sintonizado com o mal, seja desencarnado ou encarnado. Mas é uma situação temporária, da qual se liberta com o progresso moral, conquistado através das encarnações. Não é uma situação permanente, irreversível.

Pode-se argumentar que o próprio Cristo ameaçou os homens maus com o fogo eterno. Sem dúvida, se pesquisarmos nas traduções tradicionais dos textos evangélicos, encontraremos a referência de Jesus ao fogo eterno. Mas, se aprofundarmos um pouco mais no estudo, veremos que o pensamento de Jesus não é draconiano. Carlos Torres Pastorino, que era professor de grego na Universidade de Brasília, em seus estudos evangélicos, esclarece-nos que a palavra grega que adjectiva o substantivo fogo não foi adequadamente traduzida, porquanto a melhor tradução não é "eterno", mas sim "imanente". A mudança de sentido é muito grande. Imanente se refere ao estado íntimo da criatura e não tem o carácter de irreversibilidade que tem o adjectivo eterno.

Com esta tradução, o pensamento de Jesus fica mais coerente com a sua personalidade, que exterioriza profundo amor e misericórdia.

Como afirmamos acima, o inferno íntimo pode ser um estado do espírito encarnado, mas é pior após a desencarnação, porque o corpo material como que amortece a dor da consciência. No Mundo Espiritual, o espírito compreende melhor as leis de Deus e percebe, com mais nitidez, a gravidade dos erros cometidos, motivo por que sofre mais.

Um outro aspecto que precisa ser ressaltado é que os espíritos endurecidos, vinculados ao mal, permanecem, por tempo mais ou menos longo, em regiões inferiores do Plano Espiritual, denominadas por André Luiz de umbral. Neste estado, o espírito sofre muito. Embora o umbral corresponda, em vários aspectos, ao inferno descrito classicamente, a permanência do espírito nessa situação é temporária e depende dele mesmo, que sairá, tanto mais rapidamente, quanto mais cedo mudar a sua situação íntima, manifestando o desejo de melhorar. Os "demónios" que se encontram naquelas regiões são espíritos de pessoas de índole má, que se recusam a melhorar-se.

Os espíritos bons e os que não são endurecidos, após a desencarnação, habitam em colónias espirituais, onde a vida é melhor do que a da Terra. Os espíritos que se melhoram no umbral também são recolhidos a colónias, naturalmente menos evoluídas, mas onde o bem domina completamente.

Compete, pois, à própria pessoa edificar, ou se libertar do inferno interior.

Fonte: Revista "Reformador

Gota de Água


Gota de água

Uma palavra de esperança a alguém
que está à beira do abismo.
Um sorriso gentil a quem perdeu o sentido da vida.
Uma pequena gentileza diante de quem está preso nas armadilhas da ira.
O silêncio, frente à ignorância disfarçada de ciência...
A tolerância com quem perdeu o equilíbrio.
Um olhar de ternura para quem pena na amargura.
Pode-se dizer que tudo isso são apenas gotas d`água que se perdem no imenso oceano,
mas são essas pequenas gotas que fazem a diferença para quem as recebe.
Sem as atitudes, aparentemente insignificantes,
que dentro da nossa pequenez conseguimos realizar,
a humanidade seria triste e a vida perderia o sentido.
Um abraço afectuoso, nos momentos em que a dor nos visita a alma...
Um olhar compassivo, quando nos extraviamos do caminho recto...
Um incentivo sincero de alguém que deseja nos ver feliz,
quando pensamos que o fracasso seria inevitável...
Todas essas são atitudes que embelezam a vida.
E, se um dia alguém lhe disser que esses pequenos gestos são como gotas d`água no oceano,
responda, como madre Tereza de Calcutá, que sem essa gota o oceano de amor seria menor.
E tenha certeza disso, pois as coisas grandiosas são compostas de minúsculas partículas. Pense nisso! Sem a sua quota de honestidade,
o oceano da nobreza seria menor.
Sem as gotas de sua sinceridade, o mar das virtudes seria menor.
Sem o seu contributo de caridade, o universo do amor fraternal seria consideravelmente menor.
Pense nisso!!!
E jamais acredite naqueles que desconhecem a importância de um pequeno tijolo,
na construção de um edifício.
Lembre-se da minúscula gota d`água, que delicadamente se equilibra na ponta do raminho,
só para tornar a natureza mais bela e mais romântica,
à espera de alguém que a possa contemplar.
E, por fim, jamais esqueça que são essas mesmas pequenas e frágeis gotas d`água que,
com insistência e perseverança conseguem esculpir a mais sólida rocha.
 

sábado, 23 de julho de 2011

Tentações


By: Humberto Ferreira 
 
     Todos trazemos, de outras vidas, tendências boas e más; as primeiras impulsionam-nos para a senda do bem, e são estimuladas pelos bons Espíritos e pelos homens de bem; as más arrastam-nos para o caminho do mal, e são incentivadas pelos Espíritos imperfeitos e pelas pessoas de carácter inferior.

     Os bons Espíritos aproveitam as nossas boas inclinações para nos estimular a viver de maneira equilibrada e a praticar o bem; por outro lado, os Espíritos pouco adiantados, viciosos, exploram as nossas propensões inferiores, induzindo-nos a agir em desacordo com as leis de Deus e a seguir uma vida cheia de vícios e de ilusões. 
     Os Espíritos inferiores, de má índole, envidam todos os esforços para nos fazerem cair em tentações; utilizam os nossos maus pendores para nos influenciarem os pensamentos e actos. Sempre que descuidamos da vigilância, interferem nas nossas conversações, induzindo-nos a falar compulsivamente, a usar palavras inadequadas, fortes, agressivas; fortificam-nos as compulsões, inclusive alimentares; arrastam-nos para os vícios, para o sexo menos responsável ou mesmo desregrado; interferem em nossas actividades, inclusive no campo da mediunidade, predispondo-nos às mistificações; alimentam-nos o orgulho e a vaidade e a consequência destes, que é o melindre... 
     Muitas vezes, não querendo admitir as próprias fraquezas, procuramos encontrar em outras pessoas, ou na falta de protecção espiritual, as razões dos nossos desacertos; mas, se agimos honestamente, descobrimos que somos os verdadeiros responsáveis por eles. 
     Estamos ainda distantes da perfeição, com muitos defeitos a vencer; por isso, constantemente sofremos as influências das forças espirituais do mal, e, em razão disso, nossos desacertos são numerosos. 
     O que fazer para reverter a situação? 
     Ensinam-nos os Espíritos que somente ficaremos livres das más influências dos Espíritos imperfeitos (e naturalmente dos homens de más tendências), quando eliminarmos as imperfeições. Enquanto não conseguirmos atingir essa meta, os Espíritos recomendam- nos alguns recursos, de indiscutível eficácia: vigilância constante, com a sublimação dos pensamentos, sentimentos, linguagem e actos; oração diária e em todos os momentos em que percebermos as más influências; leitura edificante (O Evangelho segundo o Espiritismo, por exemplo) todas as vezes em que detectarmos sugestões negativas; recolhimento e meditação; cultivo da paz e serenidade; combate às imperfeições. 
     Podemos pedir a assistência dos bons Espíritos, que atendem prontamente aos nossos pedidos, nos amparam e inspiram bons pensamentos. Além disso, nos auxiliam nos esforços que fizermos para combater as imperfeições e as más tendências. Com certeza, obteremos bons resultados se soubermos aproveitar essa ajuda espiritual para controlar os impulsos inferiores e evitar as sugestões negativas dos que querem nos converter em instrumentos vivos do mal. Com esforço próprio e perseverança, pouco a pouco, poderemos nos aperfeiçoar moralmente, libertando-nos das influências das forças espirituais do mal. 
     Com humildade e sintonia constante com os bons Espíritos, seguramente conseguiremos alçar voos mais altos na conquista da Espiritualidade. 
Revista Reformador Dez/2007                 

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Fazendo a Paz com o Mundo


Por quanto tempo conseguimos nos manter felizes?

Porque razão quando tudo vai bem, emerge de nosso interior um pensamento que nos desequilibra?

Isto ocorre porque temos dois tipos de emoções mentais: as latentes e as manifestas. Quando um estímulo desperta uma emoção latente, ela amadurece e se manifesta automaticamente.
Em outras palavras, é como se dentro de nós tivéssemos um campo minado de raiva, ciúmes e orgulho, bastando tocá-lo para ele explodir. Se não desactivarmos essas bombas internas, estaremos projectando a causa de suas explosões em nosso mundo exterior. Enquanto buscarmos um bode expiatório para nossos conflitos interiores, nossos inimigos interiores irão se manter imperceptíveis e cada vez mais poderosos.

A felicidade externa depende, portanto, de nossa clareza interna. O auto conhecimento depende, entretanto, de nossa dedicação ao mundo exterior. Pois é a relação com o mundo exterior que nos ensina a identificar os nossos limites, assim como potenciais e qualidades positivas.

Para conquistar a clareza interior, precisamos nos desenvolver espiritualmente, isto é, despertar a compaixão por nós mesmos e pelos outros. A espiritualidade nos ajuda a sermos mais sensíveis às necessidades humanas, a nos aproximarmos das pessoas e das situações à nossa volta.

Em geral, estamos alimentando nosso ego ao ver nossa realidade como única. Isso nos torna frios e distantes com o mundo à nossa volta. Nos tornamos obsessivos ao acreditarmos que podemos controlar os outros para evitar nossas próprias emoções indesejadas. Quanto mais nos distanciamos dos outros, mais perdemos a visão clara de nós mesmos. Quanto menor for nossa capacidade humanitária, maiores serão os danos de nosso ego.

Quando tratamos os outros com ironia e sem afecto, estamos transferindo para eles nossas próprias dificuldades. Mas muitas vezes nos habituamos a reagir assim e nem nos damos conta de quanto sofrimento estamos criando para os outros e para nós mesmos. Não ferir os outros é uma acção preventiva para não ferirmos a nós mesmos.

Todos precisam se sentir amados, sentir que pertencem a um grupo social. Todos desejam se comunicar, trocar ideias, carinho, interagir de maneira amorosa. Quando alguém nos trata mal, facilmente nos sentimos melindrados, humilhados e ofendidos.

A vitalidade de nossa personalidade depende de nossa capacidade de trocar afecto, informação e contacto físico com os outros.
Quando nos abrimos para dar e receber satisfação física e mental, equilibramos nossa energia vital inspirando e expirando correctamente. Pois é ao trocar nossa energia pessoal com o mundo externo que recuperamos a vitalidade de nossa personalidade.

Cada vez que o equilíbrio já conhecido é perdido, vivemos uma sensação de crise. Quando mais limitada e menos permeável for nossa capacidade de troca com o mundo exterior, maior será nossa dificuldade em lidar com a crise.

A rigidez e a intolerância controem muralhas ao nosso redor. Quando essas muralhas são destruídas por acontecimentos externos, os efeitos são devastadores. Pois é altamente ameaçador expor a insegurança e fragilidade que elas escondiam. Quanto maior a rigidez, maior será a fragilidade que ela abriga.

Portanto, no momento da crise, quando temos que lidar com a mudança e a diversidade causada por ela, poderemos sentir até mesmo nossa sobrevivência como ameaçada.
Quanto mais obsessivos formos, menos espaço interior teremos para lidar com novas ideias, para identificar novas possibilidades sobre como superar uma crise. A obsessão nos impede de manter contacto com o mundo exterior. Nos isolamos e a crise aumenta.

Uma crise é directamente proporcional à rigidez dos limites interiores que cada um contrói dentro de si. Se formos flexíveis, seremos capazes de discriminar num momento de crise o que pertence e o que não pertence ao nosso desafio. Assim, poderemos ser permeáveis ao mundo externo, deixando nossa consciência ser tocada pela diversidade sem que esta se torne uma ameaça.

Uma prova de que estamos nos desenvolvendo espiritualmente é avaliar se nossa capacidade de tolerar os limites alheios tem crescido. Só nos tornamos tolerantes com a necessidade alheia quando estamos nutridos interiormente. Se estivermos em dívida para com nós mesmos, não teremos energia disponível para compartilhar com os outros.

O nosso mundo interior estabelece o modo com o qual iremos nos relacionar com o mundo exterior. Reagimos conforme nossas necessidades internas. Portanto, a vida parece sem significado quando damos pouca atenção ao nosso mundo interior, e nos sentimos distantes de nós mesmos. Dar atenção ao nosso mundo interior não quer dizer ficar apenas observando nossas carências, mas também reconhecer nossas qualidades positivas. Quando nos libertamos da atitude de auto comiseração, passamos a saborear nossa energia interior positiva.

Lamentarmos-nos só faz bem como um primeiro passo para expressar e conhecer nossa dor. No entanto, para curar uma ferida emocional, não basta expressá-la: é preciso ir um pouco mais adiante. É preciso reconhecer nossa habilidade de transformar essa mesma dor em sabedoria.

Quando a vida parece mais pesada do que podemos aguentar, trata-se de um sinal de que a atenção que temos dado ao nosso mundo interno não tem sido suficiente. Podemos reconhecer a natureza transitória da dor. Muitas pessoas se suicidam porque não reconhecem a transitoriedade da própria dor.

O desenvolvimento espiritual é dinâmico. Nós adquirimos nova força conforme nos propomos a seguir adiante. Tudo de que necessitamos é a coragem de seguir em frente.

SINUHE SILVA VIEIRA